O casal Victor Arce, 65 anos de idade, e Morelba Margarida Aquilar, 64 anos, vivem no Brasil hรก um ano com sua filha. Vindos da Venezuela, eles hoje buscam uma maneira de encontrar um emprego.
Na Venezuela, ele era marceneiro profissional, mas teve que vir para o Brasil por causa de um problema de saรบde de sua esposa. E enquanto a oportunidade de emprego nรฃo aparece, eles vรฃo vendendo artesanato.ย
Notรญcias relacionadas:Dia Mundial do Refugiado: pedidos de asilo sobem 11% no Brasil em 2025.Brasil chega a 35% dos empreendedores com CNPJ.Segundo Acnur, sete em cada dez deslocados enfrentam ameaรงa climรกtica.โEsse paรญs รฉ muito bom e encantador, tanto de pessoas quanto de material cientรญfico e educativo. Minha esposa tem um problema de saรบde e o tratamento venezuelano era muito custoso. E aqui, em dois meses, ela conseguiu atendimento e resolveram o problemaโ, disse.
Para buscar uma oportunidade melhor de vida no Brasil, na manhรฃ deste sรกbado (17) eles participaram de uma aรงรฃo que oferece cursos, apoio e vagas de emprego para refugiados e migrantes.ย
Refugiados e migrantes de 23 nacionalidades participam, no centro de Sรฃo Paulo, da aรงรฃo Conexรตes que Transformam - Foto:ย Rafa Neddermeyer/Agรชncia Brasil
Chamada de Conexรตes que Transformam, o evento foi promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, Konecta Brasil e Konecta Foundation, e ocorreu durante todo o dia na Alianรงa Brasil Cidadรฃ, no centro da capital paulista.
Assim como Victor e Morelba, outros 136 migrantes e refugiados, de 23 paรญses, se inscreveram para participar da atividade, com workshops de empregabilidade e empreendedorismo, revisรตes de currรญculos com traduรงรฃo para o portuguรชs, apoio a documentaรงรตes e vagas de emprego.
โEstou buscando maneiras de empreender, de abrir uma microempresaโ, disse Victor, que foi atรฉ o local para buscar ajuda com ideias e dicas sobre como ele poderia montar um negรณcio no Brasil.ย
โAqui se encontra muito apoio ao imigrante, a imigrantes de todos os paรญses do mundo. Essa รฉ uma ideia muito boa e que poucos paรญses tรชmโ, acrescentou.
Em entrevista ร Agรชncia Brasil, a lรญder do Comitรช de Inserรงรฃo de Refugiados e Migrantes do Grupo Mulheres do Brasil, Maria Helena Santuche, informou que 70% dos refugiados e migrantes que participaram da aรงรฃo promovida neste sรกbado estavam desempregados. E mais da metade deles tรชm o desejo de empreender no Brasil.ย
โA maior parte dessas pessoas quer empreender, mas elas nรฃo tรชm muita ideia ainda [em como fazer isso], porque justamente esse รฉ um empreendedorismo por necessidade, nรฃo por oportunidadeโ, explicou.
โUm dos objetivos principais [da aรงรฃo] รฉ possibilitar que esses refugiados que estรฃo no nosso paรญs trabalhem ou faรงam as adequaรงรตes necessรกrias da sua documentaรงรฃo e para que estejam com seus currรญculos preparados e atualizadosโ, ressaltou Flavio Simonato, diretor de Pessoas da Konecta Brasil.ย
โEstamos realizando palestras tambรฉm sobre mercado de trabalho para orientar essas pessoas sobre como nosso mercado de trabalho funciona e como elas vรฃo ter sucesso na busca de emprego e, lรณgico, trazendo tambรฉm oportunidades de emprego. Alรฉm disso, conseguimos doaรงรตes e vamos doar cestas bรกsicas e brinquedos para as crianรงasโ, disse.
Evento promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, Konecta Brasil e Konecta Foundation reรบne workshops de empregabilidade e empreendedorismo para imigrantes e refugiados - Foto:ย Rafa Neddermeyer/Agรชncia Brasil
Segundo Eliane Franco Figueiredo, co-fundadora do Grupo Mulheres do Brasil e lรญder do Comitรช de Inserรงรฃo de Refugiados e Migrantes, os refugiados e migrantes que se inscreveram para a aรงรฃo sรฃo principalmente da Venezuela, Congo e Haiti.ย
โA gente tem mรฉdicos aqui, por exemplo, que nรฃo podem exercer sua profissรฃo aqui [no Brasil] porque a validaรงรฃo de diploma demora muito. Entรฃo, [nesse local] estamos fazendo todo esse tipo de aรงรฃo para a empregabilidade e de capacitaรงรฃo para o trabalhoโ.
Refugiados
Segundo Vivian Holzhacker, associada de Soluรงรตes Duradouras do Alto Comissariado das Naรงรตes Unidas para os Refugiados (Acnur), mais de um milhรฃo de pessoas refugiadas ou em situaรงรฃo de necessidade de proteรงรฃo internacional vivem no Brasil atualmente.
โElas vรชm de mais de 160 nacionalidades, mas as principais sรฃo Venezuela, Cuba e Haiti. E tem um nรบmero relevante, principalmente aqui em Sรฃo Paulo, de pessoas que tรชm vindo, por exemplo, do Afeganistรฃo, Irรฃ, Sรญria e Palestina, devido aos conflitos dos รบltimos anosโ, disse.ย
โEssas pessoas muitas vezes trazem muitas experiรชncias. Muitos tรชm formaรงรฃo e muita experiรชncia no seu paรญs de origem, mas chegam aqui e precisam se reinventarโ, disse ร Agรชncia Brasil.
Quando chegam ao Brasil, essas pessoas tรชm acesso garantido a polรญticas pรบblicas como educaรงรฃo e saรบde. Mas, segundo Vivian, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados por elas.ย
โO idioma รฉ a primeira barreira para todas essas pessoas porque pouquรญssimos paรญses falam portuguรชs. E, depois, existe uma urgรชncia para trabalhar. Eles nรฃo tรชm uma rede de apoio, nรฃo tรชm moradia, entรฃo existem vรกrios desafios. Muitas vezes as pessoas tรชm diploma de nรญvel superior, mas acabam trabalhando no emprego que aparece, naquilo que elas conseguem [encontrar aqui no Brasil]โ.
Uma outra dificuldade encontrada por esses refugiados รฉ com relaรงรฃo ร documentaรงรฃo.ย
โA pessoa que sai do seu paรญs com urgรชncia, fugindo de uma perseguiรงรฃo ou de uma guerra, nem sempre tem tempo de se organizar, de organizar todos os seus documentos ou de traduzir esses documentos. Esse tambรฉm รฉ um grande desafioโ, destacou.
Por isso, reforรงou Vivian, aรงรตes como essa que estรฃo sendo realizadas em Sรฃo Paulo sรฃo importantes para ajudar na empregabilidade desses refugiados.ย
โAqui elas podem melhorar o seu currรญculo ou adequรก-lo ao formato que รฉ exigido aqui no Brasil. Elas tambรฉm podem fazer entrevistas e ter acesso a empregos. E tambรฉm podem fazer algumas capacitaรงรตes ou aprender algumas ferramentas que possam ser importantes para elas acessarem o mercado de trabalho ou serem empreendedorasโ.
Cerca de 100 refugiados e migrantes, de 23 nacionalidades, participam, no Centro de Sรฃo Paulo, da aรงรฃo Conexรตes que Transformam - Foto:ย Rafa Neddermeyer/Agรชncia Brasil
Ajuda
Os migrantes ou refugiados que vivem no Brasil e que nรฃo conseguiram participar da aรงรฃo de empregabilidade neste sรกbado em Sรฃo Paulo podem buscar outras formas de se colocar no mercado de trabalho.ย
A Acnur, por exemplo, disponibiliza a plataforma Help para ajudar a essas pessoas a atualizarem sua documentaรงรฃo ou buscarem informaรงรตes sobre trabalho e renda.ย
โNessa plataforma elas podem fazer uma seleรงรฃo por estado e municรญpio e ver quais sรฃo as organizaรงรตes que podem atendรช-laโ, explicou Vivian.
Outra possibilidade รฉ procurar a Alianรงa Brasil Cidadรฃ, onde sรฃo oferecidos cursos de capacitaรงรฃo.ย
โNรณs temos um Instagram bem robusto e os prรณprios migrantes refugiados trocam informaรงรตes por lรกโ, sugeriu Sidnea Evangelista, vice-presidente da Alianรงa Brasil Cidadรฃ.ย
โE aqui nรณs temos cursos abertos o ano todo como de informรกtica, inteligรชncia artificial e manicure. Eles podem se inscrever gratuitamente para fazer esses cursosโ.
Tambรฉm รฉ possรญvel buscar informaรงรตes por meio das redes sociais do Grupo Mulheres do Brasil ou pelo e-mail da organizaรงรฃoย ou por meio das redes sociais da Konecta Brasil.